quarta-feira, 23 de julho de 2008

OUTRAS AVES

Há palavras que são aves
Febrilmente abandonam o papel
Renegam o chão que as pariu
Voam velozes nas alturas
Parindo sonhos e novas palavras
Descansam muito raramente
No concavo das mãos
De guerreiros e sonhadores
O tempo apenas da partilha

GED

OUTROS VOOS

Corpos de geometrias variáveis
Sobem nos côncavos do vento
Planando em círculos de calor
Setas velozes mirando a presa
Pequenos ajustes no movimento
Voar é como um verso de amor
Solitário condor no azul sideral
Atento do alto à funda rodando
No arremesso da palavra certa
Planar na superfície dos poemas
Aproveitar-lhes a energia vital
Flutuar feliz no calor das rimas
Acima de todas as cordilheiras

GED

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A CAIXA DE MADEIRA

Diante da minha árvore da febre
Abro a velha caixa de madeira
A minha velha caixa de alucinações
Ouço passos seguros, cadenciados
Soltam-se os murmúrios das fontes
Águas de engrossar rios e mares
Dançam nos ventos tão diferentes
Palavras suaves de escrever e contar
Cetins verdes recobrem as margens
Voam poemas de vestir e sonhar
Máscaras escondem rostos de mulher
Moi-se massambala na casa do meio
Contam-se rios de muita água passada
Imaginam-se outros que hão-de chegar
Certos que na foz todos são de ir e voltar
Grandes manadas empoeiram o sol
Meninos homens na circunsição esperada
Os mais velhos matam os bois sagrados
Mulheres de fitas brancas nos cabelos
Velhos gaviões flutuam no ar quente
Girassóis amarelos ensaiam valsas lentas
No horizonte o chão estremece de calor
O grande vermelho entra no rio maior
Polvilhando de faúlhas os céus negros
Hora de dragões sobrevoarem as fogueiras
Libertam-se os lobos de todas as memórias
Sonhos de boiar na superfície da vida
Embrulham-se cambriquitos e juras de amor
No ritmo dos batuques há muito ensaiados
Até que os corpos se diluam na madrugada.

GED